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07/03/2018
ARTIGO - Deixe seus tênis por perto

Por Francisco Satkunas


Ainda que de maneira tímida, observamos alguns indicadores de que a economia começa a sair da UTI, ou para os menos otimistas, já deixa de piorar como nos acostumamos a vivenciar nos últimos dois anos. Inflação contida e PIB positivo corroboram tal fato. Nos três últimos meses houve uma reação ainda fraca, mas no sentido correto com geração de empregos mensais ao redor de trinta e poucas mil vagas.

O agronegócio parece imune à crise e mesmo sem grandes incentivos acumula recorde de produtividade, além de dar sustentação ao setor de máquinas agrícolas. Infelizmente a suspensão de investimentos em infraestrutura e construções prejudica a reação de vendas das máquinas fora de estrada e até mesmo dos caminhões.

No setor de veículos comerciais e leves, se o mercado cresce na forma de um dígito magro, as exportações registram robustos dois dígitos em performance. Com isso, a produção começa a se recuperar, em um primeiro momento preenchendo a lacuna da ociosidade produtiva ao redor dos cinquenta por cento.

Acordos comerciais estão sendo costurados, principalmente, com países da América Latina, que ajudarão a energizar a tão aguardada retomada. A reação da empregabilidade vira gradativamente com os novos investimentos.

As vendas de veículos usados se verificam ao redor de 6 para 1 em relação aos veículos novos. O preço dos usados seminovos indica tendência ao crescimento, o que faz com que aos poucos eles tendam a se aproximar dos veículos novos. Na impossibilidade de financiar um veículo novo, a saída do consumidor é apelar para um usado seminovo. Entretanto, todas as pesquisas indicam que a aspiração do comprador está em adquirir um carro zero quilômetro, um exemplar entre os milhares de modelos diferentes com os quais as equipes de vendas dos concessionários tentam seduzir a clientela.

Essa aspiração se fundamenta no fato de os novos veículos, em grande parte por conta do Inovar Auto, serem muito mais seguros e eficientes, energeticamente, graças às novas motorizações, e além de tudo menos poluidores. Num patamar mais elevado o mercado já oferece veículos híbridos e mesmo elétricos, ainda importados.

O automóvel brasileiro evoluiu muito e as formidáveis exportações não se devem apenas às questões cambiais, mas também pelo reconhecimento da competência técnica da engenharia brasileira aliada à indiscutível qualidade.

Isso nos leva a refletir que, mais cedo ou mais tarde, poderemos ter uma retomada da procura por veículos novos assim que a confiança do consumidor se restabeleça e o mesmo passe a se sentir seguro quanto ao emprego. A demanda de consumo está por aí. O exuberante mercado brasileiro é estável e previsível e isso atraiu muitas novas montadoras para cá.

Se na Europa o crescimento do mercado é quase vegetativo, por aqui já tivemos vendas acima dos 3,5 milhões de veículos. Em 2017 fechamos em 2,2 milhões. Entretanto, poderemos ter uma reação muito rápida como muitas vezes vivenciamos no passado. Num primeiro momento, fabricantes de veículos lançarão mão do banco de horas e turnos esticados ou adicionais. O poder de recuperação de uma montadora é formidável.

Mas o que desejo alertar é sobre os fornecedores. Principalmente os “tier” 2 ou 3. Esses sofreram muito com a crise e se debilitaram. Seu poder de reação está diametralmente oposto ao das montadoras. Se a tão esperada recuperação rápida vier será algo como tirar um atleta em recuperação do hospital e colocá-lo numa maratona.

Logicamente esse fornecedor, como é de se esperar, irá preferenciar os clientes que lhe dão melhor resultado operacional, ou aos que deram maior apoio na crise e mantiveram seus ferramentais e demais recursos em bom estado produtivo. Algumas montadoras poderão se ressentir de falta de peças para atender aos pedidos que a rede de concessionárias poderá demandar. Isso significará a perda das preciosas vendas e, em consequência, a tão ambicionada participação de mercado.

Nesse particular, o intrigante título desta coluna eu desejo associar a essa reflexão. Ele foi inspirado num conto que relata estarem dois colegas em uma tenda de camping numa pescaria e tarde da noite ouviram o rugido de uma fera que já espiava pela abertura da barraca. Um deles então começou a calçar os tênis. Nisso o outro falou: “Você acha que vai escapar dessa fera correndo mais do que ela?” O outro imediatamente respondeu: “Não preciso correr mais do que ela... Basta correr mais que você”.

Francisco Satkunas é conselheiro da SAE BRASIL




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